O organismo humano é extremamente hábil em ajustar-se a várias situações. Tem meios de compensar as perdas e de tentar recuperar o perdido. Quando uma criança não recebe a confirmação do seu valor e do seu merecimento, começa a adaptar-se, a agir e reagir de modo a não passar pelo crivo da dor e/ou a preencher os seus vazios dolorosos. Algumas
das suas estratégias terão como fim evitar mais sofrimento, enquanto outras terão como meta ganhar amor. Gostaria de percorrer uma lista breve e incompleta dessas estratégias, sintomas comportamentais que aparecem nas pessoas que não aprenderam a amar-se e a estimar-se. A gravidade do sintoma e a frequência com que é utilizado serão sempre proporcionais à maior ou menor ausência de auto-estima e amor ao eu.

Exagerar ou gabar-se.

Por definição, a pessoa que se gaba elogia-se com o objectivo de ganhar reconhecimento e um sentido de valor tanto a seus próprios olhos, como aos olhos dos outros. Como percebemos muitas vezes, o gabarola não apenas tenta convencer-nos das suas habilidades ou do seu valor, mas também tenta convencer-se a si mesmo; em geral, depara com a descortesia. Muitas pessoas terão prazer em pô-lo no seu devido lugar. e o resultado é o contrário do que ele espera. O problema é que o contador de vantagem está convencido de que a aceitação e o amor são condicionais e ele tenta apresentar as suas credenciais como titulo de ingresso no amor.

Atitude crítica

A pessoa que não se ama pode adaptar-se à sua situação tornando-se um critico dos outros, descobrindo sempre e apontando os seus defeitos. Obviamente, estas acusações são sempre auto-acusações, embora a pessoa não o perceba. A sua crítica é baseada numa projecção daquilo que ela pensa que é. Já que odiar-se a si mesma pela sua falta de valor e pelos seus erros seria doloroso demais, projecta-os nos outros e passa a espalhar o seu veneno com propósitos destrutivos.

Racionalização

A pessoa sem amor por si mesma não tem sentido do valor pessoal e avalia-se unicamente através da própria actuação. Consequentemente, quando esta deixa algo a desejar, imediatamente se desculpa, racionalizando o seu erro. Seria
doloroso demais admitir que está errada e confessar as suas faltas e os seus erros. Nunca se aceita perder uma discussão ou dar uma informação errada, etc. O seu valor é sempre condicional e tais erros destruiriam os seus últimos traços de auto-respeito.

Perfeccionismo

Uma pessoa assim tenta obter uma perfeição meticulosa em tudo o que faz. A boa actuação é condição necessária para obter reconhecimento e amor e assume uma importância crucial na vida da pessoa. Tenta permanentemente passar no teste, pagando o preço de admissão ao sentimento de valor pessoal. Todo o seu empenho é no sentido de satisfazer as expectativas daqueles que podem aceitá-la ou rejeitá-la.

Timidez

Já que lhe ensinaram que os outros vão aceitá-la somente sob certas condições, a reacção básica desta pessoa diante das outras é de medo. Tem medo de ser criticada, de ser avaliada e de ser rejeitada.
Para não correr tais riscos, enclausura-se e protege-se atrás de um véu de timidez. Em situações
nas quais perde a confiança, sente-se tímida e retraída.
É uma espécie de casulo psicológico contra o fracasso.
O problema é sério, uma vez que a sua pessoa e o seu valor estão sempre em causa.

Auto-depreciação

Para se ajustar a esta condição dolorosa de vazio, a pessoa pode pintar um quadro tão depreciativo de si mesma que os outros não esperarão muito dela, evitarão criticá-la e até poderão vê-la com simpatia. A imagem de uma “vitima desprotegida” não ameaçará os outros, e o tratamento que lhe darão pode até incluir uma tentativa de a encorajar.

Raiva

A pessoa atormentada pela falta de valor pessoal odeia, em primeiro lugar, a sua própria inadequação e a sua falta de importância. Logo de seguida, odeia-se a si mesma. Quando esta raiva se volta para a própria pessoa, toma a forma de depressão e tristeza. E muito menos penoso desafogar a raiva nos outros, expressando a própria dor através de um ataque de fúria.

Docilidade defensiva

Um outro ajustamento possível à ausência de uma verdadeira auto-estima é o de tornar-se cumpridor submisso de qualquer regulamento, lei e regra, com precisão mecânica. Esta pessoa aprendeu muito cedo que a submissão traz
recompensas sob a forma de um sorriso ou um abraço e, por isso mesmo, continua a tentar. Procura ser uma pessoa inteiramente boa e obediente. Sente-se, com isto, mais segura contra críticas, uma vez que pode esconder o seu verdadeiro eu atrás da obediência às regras. Esta pessoa busca continuamente a aprovação dos outros.

Tornando-se solitário

A pessoa com o ego ferido obviamente vai sentir-se mais segura não se envolvendo com outras pessoas. Estas poderão descobrir que ela não merece ser amada por si mesma. Começarão a impor-lhe as mesmas condições antigas e repetidas para lhe oferecerem reconhecimento e amor. E mais fácil evitar este jogo cansativo, mantendo-se sozinha. Pode fingir uma sociabilidade superficial, mas, no fundo, está essencialmente sozinha.

Tornando-se campeão

Em certo sentido, todos acreditamos que o que fazemos compensará aquilo que não somos internamente. Somos tentados a perseguir a realização de “grandes feitos”, a possuir coisas grandiosas e magníficas, na esperança de que
elas nos tragam atenção e reconhecimento. Para as pessoas que tentam um ajustamento desta natureza, as realizações e as posses constituem uma extensão do eu, e tais pessoas necessitam de toda a «extensão» Que puderem obter.

Máscaras, papéis, fachadas

A pessoa que recebeu e conheceu apenas o amor condicional não pode tolerar críticas às suas acçôes e opiniões ou à própria pessoa. Foi ferida e não quer arriscar mais a sua vulnerabilidade. A crítica às suas acções ou à sua pessoa arruinaria toda a sua existência. Pode procurar abrigo de tal crítica devastadora vivendo um papel no palco da vida, em vez de se mostrar às pessoas.
Se alguém criticar a sua própria pessoa ou os seus actos autênticos, ela será destruída.

lntrojecção

Estando basicamente insatisfeita consigo mesma, a pessoa que se desvaloriza tenderá a identificar-se com outra, de preferência um herói conhecido por todos ou um herói particular. Será como o rapaz que imita os gestos de um atleta famoso ou como a rapariga que finge ser uma artista de cinema.
Ambos “introjectam” qualidades e habilidades que não possuem; mesmo não sendo autênticas, o efeito é consolador.

Amabilidade absoluta

Uma das características mais tristes das pessoas que não podem se amar é serem permanentemente boazinhas. Este tipo de pessoa concordará com qualquer coisa a qualquer momento só para obter algum reconhecimento e aprovação. Não faz, porém, de maneira genuína, tornando-se triste e acomodada. Contudo, prefere ser cordata a todo o custo a experimentar uma solidão absoluta.

Cinismo, desconfiança

Já que não se valoriza. esta pessoa também não confia em si mesma. Na crença cega de que todos são como ela, estende e projecta a sua falta de confiança sobre as outras pessoas. Não acredita e não confia em ninguém.

Retraimento

O retraimento é diferente da timidez, que se refere a relutância em inicar relacionamentos pessoais. O retraimento refere-se ao receio de arriscar, de tentar coisas novas. Receosa de amar e ser amada devido ao perigo do fracasso e da rejeição final, a pessoa que não se valoriza terá medo de tentar qualquer coisa significativa. Está, na verdade, separada de grande parte da realidade por causa do seu medo. Não experimenta o novo por medo de errar. Tem receio de expressar-se porque pode cometer algum equívoco ou alguém pode opor-se a ela. Tem medo de abrir-se aos outros porque eles podem desamá-la.

Sumário

Cada pessoa nasce com um valor único e incondicional. Cada um de nós é misterioso e não se repete em todo o curso da historia humana, criado a partir da imagem e semelhança do próprio Deus. Mas só podemos conhecer-nos como um reflexo nos olhos dos outros. Assim sendo, o nosso dom da auto-estima é, em grande parte, um presente dos nosso pais. Se tivermos percebido – como é o caso da maioria das pessoas – que o seu amor por nós era condicional; que era “ligado” só quando satisfazíamos as suas condições e “desligado» quando não as satisfazíamos; que este amor não era baseado naquilo que somos, mas na nossa actuação, podemos apenas concluir que o nosso valor está fora de nós mesmos. Não há um motivo interior para o verdadeiro amor ao eu  par a auto-estima e auto-apreciação. Não há razão para para celebrar.

Quando o critério para merecer amor é uma questão de passar em testes e preencher condições, começamos a experimentar mais fracassos do que êxitos. Na experiência repetida do fracasso aparecem o conflito, o medo, a frustração, a dor e por fim, alguma forma de ódio de si mesmo. Passamos o resto das nossas vidas tentando escapar desta dor  através de um dos mecanismos descritos acima. Ou tentamos assumir uma fachada que agrade aos outros  e nos traga aceitação e amor. Desistimos de ser nós mesmos e tentamos ser uma outra pessoa, alguém que seja digno de reconhecimento e afeição.

Do livro: «O segredo do amor eterno» – Jonh Powell

Editado por: Isabel Pato

Artigos relacionados

Pin It on Pinterest

Share This